A prática de carimbar/contramarcar moedas é quase tão antiga quanto o próprio uso da moeda metálica. Há registros de moedas contramarcadas nos tempos de Júlio César, e dos imperadores Tibério e Nero.

Em termos numismáticos, a contramarca se distingue do carimbo, em que sendo este último também uma contramarca, leva o escudo de armas do país que o aplica, ou ao menos alguns de seus atributos. A contramarca, por outro lado, se forma com números, figuras ou símbolos que nada têm relação com o brasão do país que o aplica.

De maneira geral, um país carimba moedas estrangeiras com o intuito de nacionalizá-las devido, por exemplo, falta de numerário próprio.

Já a contramarca era aplicada por diversos motivos: distinguir moeda boa da má, uniformizar o valor de uma série monetária para a qual não se emitiu moedas novas, utilização de moedas estrangeiras (afinal um carimbo é uma contramarca).

Em situações de guerra, mudanças sociais ou políticas e penúria econômica se contramarcam moedas retiradas de circulação para dar-lhes novo curso.

O recunho, como o entendemos para 960 réis, é uma carimbagem total do disco da moeda base. E nem aqui somos os únicos: todos os dólares (5 shillings) ingleses de 1804 são cunhados sobre moedas estrangeiras - 8 reales hispano-americanas em sua maioria.

Carimbos, contramarcas e recunhos em moedas brasileiras

O Brasil tem uma longa história de contramarcagem e carimbagem de moedas, tanto em moedas estrangeiras (carimbo de Minas) quanto nacionais (carimbo Geral, este de fato uma contramarca).

Desde o século XVI, moedas portuguesas e hispano-americanas circulavam no Brasil, porém a primeira moeda atribuída ao Brasil com registro oficial (não considerando as emissões holandesas a partir de 1645), foram os "carimbos coroados" sobre moedas espanholas a partir de 1643 e sobre moedas portuguesas a partir de 1663.

Uma das carimbagens mais expressivas foi a ocorrida em decorrência da vinda da família real em janeiro de 1808, que afetou praticamente todo o meio circulante em prata e cobre do Brasil, e que culminou com a criação do patacão em 1809.

O 960 réis - um pouco de história

Tentando derrotar a Inglaterra, Napoleão atacou-a por mar até que foi derrotado na Batalha de Trafalgar em 1805.

Percebendo que o poder naval e a posição insular da Inglaterra possibilitavam sua defesa, Napoleão decretou o Bloqueio Continental em 1806, proibindo qualquer país europeu de comercializar com os britânicos. Caso essa determinação fosse desobedecida, o país seria invadido e consequentemente ocupado.

Este bloqueio colocava Portugal numa situação insustentável. Se Portugal acatasse o Bloqueio não seria invadido, porém perderia as mercadorias industrializadas provenientes da Inglaterra.

Mas, se desobedecesse às imposições da França, teria o território invadido por Napoleão. Nesta época, governava o príncipe-regente D. João, já que sua mãe, a rainha D. Maria I, era doente mental e não governava desde 1792.

A solução encontrada foi a fuga da corte portuguesa para sua colônia mais rica, o Brasil. Em 29 de novembro de 1807, partiu de Lisboa, escoltada por tropas inglesas, uma esquadra de 36 navios com cerca de 10.000 pessoas, entre elas a família real portuguesa, nobres e altos funcionários.

No dia seguinte, as tropas francesas lideradas pelo general Junot invadiram Lisboa. Em 22 de janeiro de 1808, chegavam à Bahia D. João e a corte portuguesa.

A presença da família real portuguesa e sua corte exigia uma grande quantidade de dinheiro para sua manutenção no Brasil. O príncipe-regente D. João tomou uma série de medidas de caráter monetário:

  • carimbar os pesos (8 reales) castelhanos com o valor de 960 réis (Alvará de 1º de setembro de 1808), pesos esses que tinham valor de câmbio de 750 a 800 réis. No início, tal medida se restringia à Capitania de Minas Gerais;
  • carimbar as moedas de cobre cunhadas anteriormente a 1803 com escudete para dobrar-lhes o valor (Lei de 10 de abril de 1809);
  • carimbar as moedas da série "J" de D. José I, com escudete que elevava seu valor de 600 para 640 réis, de 300 para 320 réis, de 150 para 160 réis e de 75 para 80 réis (Alvará de 18 de abril de 1809).

A moeda de 960 réis, nada mais do que um carimbo total de disco, foi formalizada no Alvará de 20 de novembro de 1809. Não se sabe realmente porque a produção de carimbos foi interrompida e iniciou-se a de 960 réis; muito provavelmente o carimbo foi criado originalmente com caráter provisório, para ser utilizado enquanto se preparavam os cunhos e equipamentos para a cunhagem sobre o disco inteiro.

Elevar o valor de uma moeda de 8 reales, de aproximadamente 750 réis para 960 réis, significou desvalorizá-la. Como consequência, apesar do 8 reales ter sido uma moeda que circulava no mundo todo (quase que como uma "moeda universal"), o mesmo não aconteceu com os 960 réis.

Mesmo possuindo obviamente os mesmos peso e teor de prata, o valor estampado era aproximadamente 20% menor que o conteúdo intrínseco de prata. Consequentemente, o 960 réis comprava 20% mais no Brasil do que no comércio internacional, e, como resultado direto, estas moedas permaneciam no Brasil.

Além do mais, era muito caro derreter a moeda por sua prata, pois o resultado era o mesmo: a prata obtida valia 20% menos que a denominação da moeda. Esta diferença de 20% era o lucro do governo.

Porém, como se pode deduzir, esta desvalorização causou uma inflação percebida ao longo dos anos: o custo dos 8 reales foi aumentando com o passar dos anos até o valor de aproximadamente 900 réis em 1824, e cerca de 960 réis ou mais em 1827, quando a produção desta série foi encerrada.

Recunhos: um pouco de metalurgia

Quando falamos em colecionar 960 réis, pelo recunho, se pressupõe que uma quantidade razoável de características da moeda base possa ser observada por um colecionador médio, quer dizer, sem ser realmente um especialista.

Exemplo de recunho: moeda de 960 Réis recunhada sobre 8 Soles Argentinos
Moeda de 8 Soles Argentinos (esquerda) e à direita, exemplo de moeda de 960 réis recunhada sobre 8 Soles Argentinos. (960 réis da coleção do amigo Raimundo Marim, imagem gentilmente cedida por ele ao Collectgram para uso neste artigo)

Isto nem sempre é verdade; todos nós que já observamos uma certa quantidade de patacões sabemos que alguns estão muito mal cunhados, outros mais ou menos, ou seja, podemos ver algo da moeda base, e ainda há outros tão bem cunhados que muito pouco da moeda base está visível. Porém pode-se dizer que de maneira geral é quase sempre possível identificar a moeda base, ou ao menos, algumas características gerais dela.

Ora, por que isso acontece com os 960 réis? Como já dito acima, outras moedas foram recunhadas - o 5 shillings de 1804 do Banco da Inglaterra é um caso típico - mas não se ouve falar de coleção de recunhos de 5 shillings. Duas causas são apontadas como geradoras dessa característica do 960 réis.

Em primeiro lugar, falta de pressão durante o momento da batida, ou algum outro tipo de mau ajuste ou desalinhamento do equipamento de cunhagem.

Enquanto que na Inglaterra já se usava uma prensa a vapor, que fornecia uma grande pressão sobre a moeda, e de tal modo que são raros os 5 shillings que mostram muito da moeda base, nas Casas da Moeda brasileiras se usava ainda o balancim, um equipamento muito mais rudimentar e sujeito a desajustes do que seu sucessor inglês.

A falta de pressão na hora da cunhagem, ou outro tipo de desajuste, causava um 960 réis irregular, com muitos detalhes da moeda base ainda presentes e muitas partes do 960 réis ausentes.

Uma outra causa para cunhagem fraca pode ser decorrente do processo metalúrgico. De modo geral, quanto mais "macio" o disco (uma moeda em "branco", com peso e pureza corretos), melhor a cunhagem. Esse é o motivo pelo qual geralmente discos crus eram "recozidos" antes de receberem a cunhagem.

O processo de fabricação de discos começa com a liga de prata sendo alimentada numa prensa de rolos e dando origem a chapas de espessura determinada. Essa chapa dá origem a discos de prata com pesos corretos quando cortados por uma forma de, por exemplo, 39 mm de diâmetro (a média de diâmetro de moedas de 8 reales).

Os processos de prensagem em rolos e posterior corte fazem com que a prata "endureça", pois, os cristais do metal são quebrados em partículas muito menores. Ligas mais duras, como qualquer um deduziria, não são boas para os cunhos.

Elas causam desgaste acelerado e mais quebras, além de uma pior qualidade de cunhagem. Para combater estas circunstâncias, os discos em branco eram "recozidos" num forno. Eram aquecidos até um ponto consideravelmente abaixo da temperatura de fusão da liga, e deixados lá por algum tempo.

Durante esse tempo os cristais da liga que formam o disco aumentam de tamanho, e fazem com que a liga "relaxe" para seu estado original mais macio. Os discos são postos para esfriar até uma temperatura um pouco superior a ambiente.

São então limpos com um ácido fraco para dissolver qualquer resíduo de óxidos metálicos que tenham se formado na superfície. Isso é necessário porque estes resíduos são abrasivos, ainda que minimamente mais do que a superfície limpa do disco.

No que se refere aos 960 réis, uma vez que os discos de 8 reales eram cunhados em suas casas da moeda de origem, eles se tornavam "duros" outra vez, assim seria necessário passar por mais um ciclo de recozimento antes de transformá-los em patacões (lembre-se, não havia o processo de laminação na manufatura de 960 réis, pois se utilizava o disco de 8 reales diretamente na prensa).

Não podemos provar, mas pode-se deduzir que o recozimento de patacões não era uniforme. Moedas que passavam por um processo bem feito, e cunhadas numa máquina bem ajustada, deveriam originar patacões bem cunhados, com poucos traços da moeda base.

Já 8 reales mal recozidos, que mantinham muito de sua dureza do disco, ou cunhados em máquinas com pouca pressão ou mal ajustadas, ou ainda sob efeito da combinação destas duas causas, produziam patacões mal cunhados, com muito da moeda base ainda em evidência, e, em casos extremos, com partes da base que sequer tenham sido comprimidas pelo cunho, e que hoje são o deleite dos colecionadores de recunhos!

Esta é uma explicação um pouco mais complexa para a segunda causa de visibilidade de moeda base, que é recozimento mal feito ou insuficiente. Alguém poderia dizer que, em comparação com o primeiro tipo, o resultado é o mesmo: a cunhagem é menos definida do que poderia ser, e os atributos da moeda base têm maior possibilidade de "sobreviver" ao processo de recunhagem.

A coleção de 960 réis por recunhos

Há várias maneiras de se colecionar os 960 réis. Apesar de ser uma série de curta duração (1810-1827 mais 1832-34), quando comparado com séries de outros países (8 reales hispano-americanos, dólar dos Estados Unidos, 8 reales da República Mexicana), colecionar 960 réis apresenta enormes desafios.

Sem dúvida a coleção mais simples é ter um exemplar de cada Casa da Moeda (Bahia, Minas e Rio) de cada tipo (Colônia, Reino Unido, Império). Outra maneira, que exigirá mais esforço, é colecioná-los por data, para uma Casa da Moeda ou mesmo para todas (boa sorte com as moedas de Minas Gerais...).

Um terceiro tipo de coleção, muito difundido no Brasil, é colecionar 960 réis por variante. Variantes nada mais são do que o testemunho da tecnologia da época (ao menos no Brasil) no que se refere a manufatura de cunhos: o equipamento disponível não permitia a replicação de cunhos através de cópias exatas de uma matriz, o que como consequência imediata fazia com que fosse necessário abrir novos cunhos para substituir os que se quebravam ou desgastavam muito.

O fato de ser humanamente impossível abrir cunhos idênticos, ainda mais porque muitas vezes eram pessoas diferentes que os faziam, deu origem às variantes. A mudança na tecnologia de manufatura de cunhos, que em linhas gerais é um processo onde se abre uma matriz somente uma vez, e esta matriz é replicada em cunhos, eliminou a diferença entre os cunhos de uma mesma emissão.

Um outro tipo de coleção de 960 réis, e provavelmente único na numismática, é o por recunhos. Devido ao fato destas moedas serem em geral mal cunhadas (ao menos quando comparadas com seu "similar" inglês), pode-se facilmente identificar a moeda base na maioria dos casos.

E esta possibilidade abre caminho para uma grande variedade de tipos, alguns muito comuns e outros muito raros, mas principalmente abre caminho para o estudo e o entendimento da moeda corrente na época não só no Brasil mas também em praticamente toda a América Latina.

Apesar de ao início do século XIX a dominação hispânica já estar em declínio, o 8 reales ainda era sem dúvida a moeda universal da época. Deste modo, era uma moeda corrente e aceita em praticamente todos os países, inclusive o Brasil.

Os 8 reales eram emitidos em diversas Casas da Moeda, tanto na América (México, Potosi e Lima principalmente, além de outras menores como Santiago, Popayan e Guatemala) quanto na Espanha (Madrid e Sevilha) e circulavam livremente em todo lugar. Eram estas moedas as utilizadas como base pelo 960 réis. Deste modo, colecionar 960 réis é como montar uma "fotografia" do principal meio circulante da época. Pode-se dividir o tipo de base em quatro subgrupos:

Moedas coloniais hispano-americanas

As moedas do período colonial provenientes das Casas da Moeda do México, Potosi e Lima são responsáveis pela grande maioria das bases de todos os patacões. O período de estudo compreende as moedas desde Felipe V até Fernando VII, sendo que os tipos colunários (Felipe V, Fernando VI e Carlos III) são muito raros de serem encontrados como bases.

Já os tipos com busto (Carlos III, Carlos IV e Fernando VII) são todos comuns (embora as de Carlos III sejam um pouco mais escassas como base) e podem ser encontrados em praticamente todo o período de cunhagem de 960 réis. Além destas casas, há ainda as moedas emitidas por Santiago (Chile), Guatemala, Nova Guatemala e Popayan.

Salvo pouquíssimas exceções, as bases de Santiago não chegam a ser escassas, mas definitivamente são menos comuns que as do México, Potosi e Lima. As moedas da Casa da Moeda da Guatemala (que cunhou até 1773) são muito raras, com pouquíssimos exemplares cunhados sobre estas bases.

Porém as moedas brasileiras sobre 8 reales da Nova Guatemala são ligeiramente mais escassas que as de Santiago e não chegam a ser raras. Finalmente, 960 réis sobre moedas de Popayan (Colômbia) são muito raros: só há 3 moedas conhecidas.

Um subgrupo de moedas coloniais são as emissões emergenciais, em geral escassas como base. Estas são: os 8 reales de Cuzco (Peru) de 1824 - muito raros como base - e os 8 reales emitidos durante a revolução mexicana (1810-1822) dos quais podem ser encontrados como base moedas provenientes de Zacatecas (escasso), Guadalajara (escasso), Guanajuato (raro), Durango (raro) e Chihuahua (único).

Moedas espanholas

Basicamente são os 8 reales cunhados em Madrid e Sevilha, a partir do reinado de Carlos III. Com exceção das moedas de Carlos III, um pouco mais escassas como base, as moedas destas duas casas são relativamente comuns nos patacões da colônia, um pouco menos comuns nos do Reino Unido e muito escassas como base de patacões do Império.

A Espanha também emitiu moedas emergenciais durante a invasão pela França (1808-1812) que podem ser encontradas como bases dos patacões: são as moedas emitidas por Cádiz (comuns), Catalunha (raras) e Valência (raras), além de outras que são consideradas no grupo de moedas raras: Tarragona, Gerona, Palma de Mallorca e Barcelona (esta uma emissão francesa).

Moedas latino-americanas independentes

Este é um grupo de bases de grande diversidade em tipos. A partir de 1810 muitos países que eram até então colônias passaram a lutar por independência e isto foi refletido também na numismática.

Deste modo, além dos tipos coloniais tradicionais, pode-se encontrar como base de 960 réis, as seguintes moedas:

  • 8 reales (1813 e 1815) e 8 soles (1815) da Argentina (Províncias del Rio de la Plata), em patacões a partir de 1814;
  • 1 peso Chile (1817- ) em patacões a partir de 1817;
  • 8 reales Peru Libre (1822-3) em patacões a partir de 1823;
  • 8 reales República Peruana (1825- ) em patacões a partir de 1825;
  • 8 reales México - Império de Itúrbide (1822-23) em patacões a partir de 1823;
  • 8 reales República Mexicana (1823 -) em patacões a partir de 1824.

Outras moedas, em geral raras

Este último grupo compreende moedas base que como que entraram "por acidente" nas Casas da Moeda brasileiras, pois não formam um grupo homogêneo e em geral são muito raras como base.

Apesar de formarem um número considerável de países de origem, há muito poucos exemplares de cada um e em muitos casos são únicos. Eles são:

  • México: 8 reales de Chihuahua, 8 reales com carimbos MVA e LCV;
  • Peru: 8 reales Fernando VII sobre 8 reales Peru libre (recunho sobre recunho!), 8 reales Peru Libre com Carimbo de 1824;
  • Inglaterra: 1 coroa 1696, 8 reales com carimbos octogonal e oval, 5 shillings 1804, 8 reales com carimbo GR, 2 rúpias de Madras, 8 reales com carimbos locais;
  • Espanha: 5 pesetas Tarragona, 1 duro Gerona, 5 pesetas Barcelona, 30 sous Palma de Mallorca;
  • Estados Unidos: 1 dólar;
  • França: 1 ecu Luís XV, Luís XVI e Luís XVIII, 5 francos Napoleão (Primeiro Cônsul e Imperador);
  • Itália: 1 tallero Toscana, 5 liras Reinado de Napoleão;
  • Áustria: 1 thaler Maria Theresa;
  • Holanda: 1 ducado;
  • Bélgica: 1 patagon de Brabante;
  • Brasil: 8 reales com Carimbo de Minas;
  • China: 8 reales com carimbos chineses.

Autorização de publicação
Esse artigo foi retirado do Boletim nº 54 da Sociedade Numismática Brasileira, originalmente publicado pelo Sr. David André Levy no I Congresso Latino Americano de Numismática que aconteceu nos dias 26 a 30 de novembro de 2003.

A publicação do mesmo no Blog do Collectgram foi autorizada pela SNB, na pessoa do Presidente Gilberto Tenor no dia 11/08/2018.